segunda-feira, setembro 29, 2003

A PLACA

Um gajo ao longo dos dias faz um esforço incrível para ser simpático com quem o rodeia. É a nossa obrigação vem na bíblia e isso tudo. Mas por vezes é difícil, para não dizer completamente impossível.
Depois de um dia de horrível ressaca finalmente ganhei coragem para sair da cama. Estava tonto, doía-me o corpo todo e calculo que tinha até um pouco de febre. Tomei banho e fiz a barba para parecer um gajo decente e aceitei um convite amigável para jantar. É sempre bom jantar fora em dias de ressaca, especialmente com pessoas que nos fazem esquecer que a nossa vontade é procurar uma cova e ficarmos lá até ao resto da eternidade.
O Meco não é propriamente um sítio cheio de interesse num final de tarde de Setembro, mas sempre se encontra um sítio ou outro para beber um copo para fazer tempo para o jantar. Um ou outro pescador desempregado tenta nos convencer que precisa de dinheiro para comprar os medicamentos para a netinha muito doente, mas este tipo de episódios até transmite um pouco de humor ao copo, sempre são variedades gratuitas.
O restaurante tinha um ar simpático, as empregadas apesar de não serem bonitas não eram propriamente uns camafeus e eu preparava-me para comer lulas recheadas. Quando, vindos só Deus sabe de onde surgem dois cavalheiros que se sentam na mesa ao lado. Um deles, que aparentava estar profundamente alcoolizado, um estado muito meu conhecido, seria meu vizinho do lado durante o resto da minha refeição.
A conversa com o meu amigo estava interessante como sempre, disparávamos insultos cruzados sempre com grande sentido de desportivismo e riamos da miséria alheia. Tudo bem até aqui, um dia como outro qualquer, talvez a viagem não tivesse valido a pena, mas mesmo assim a noite estava a ser agradável.
Por um acaso do destino, no meio dos insultos eu decido falar sobre os meus dotes culinários que nunca que ajudaram a comer gaja nenhuma, o vizinho do lado, pelas suas palavras um grande cozinheiro, decide aumentar a minha cultura culinária. Na hora seguinte ouvi, com grande dificuldade, a descrição de duas dezenas de pratos em que o ingrediente principal, como não podia deixar de ser, era o vinho. Já sei fazer, carne guisada como vinho, camarões com vinho, sapateira com vinho, caldo verde com vinho e muitos outros petiscos do outro mundo.
O senhor em questão comia, ou melhor, cuspia sapateira enquanto falava comigo. Tinha uma forma única de abrir as patas da sapateira, usando os dentes, coisa normal na ausência dos tão úteis martelinhos de madeira, mas muito pouco prática naquela circunstância. Pois bem, reparando ele para o meu olhar de espanto, explico-me, ou melhor demonstro-me a lógica para tal feito, enquanto caíam pedaços de sapateira da sua placa erguida bem alto na sua mão direita como um troféu dizia:"Não tenho medo de partir os dentes, a placa é muito resistente.".
Olhei para as lulas, pedi a conta, fui à casa de banho, vomitei e voltei para casa.

Dúvida: -Será que alguém neste mundo pensa que usar placa é um motivo de orgulho?

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