terça-feira, setembro 30, 2003

Big Mac, Paixão e a Cruz de Cristo

Todos os dias de ressaca por volta das 3 da tarde vou ao MacDonnald's mais próximo, peço um hiper menu big mac, sento-me na esplanada, quando ela existe, acendo um cigarro e paro para observar o aspecto plástico da minha comida.
Por vezes durante a noite, quando a bebedeira é suficientemente boa apaixono-me pela mulher mais interessante do mundo, esqueço tudo o que existe no exterior e no meu interior lúcido e perco-me de amor, traio todos meus dogmas e todas as minhas paixões.
O big mac tem o mesmo aspecto da mulher da noite anterior, não tem sabor, não tem ideias, não tem beleza, é de plástico.
A mulher de plástico sorri para mim, noto que lhe faltam dois dentes, a sua beleza tornasse ainda mais absurda, num gesto de cabaret fora do tempo roça o seu cu de tamanho disforme no meu sexo, nada acontece, o amor do álcool não tem nada de sexual é platónico.
Bebo um pouco da minha fanta, sabe-me mal, falta-lhe algo, dizem que é da ausência de vodka. Estão enganados, é o vazio da minha alma, no meio de tantas paixões esqueci o sabor do amor, esqueci o prazer d'um acordar seguro ao lado de uma mulher que amo, mesmo me de manhã, mesmo sem beber. É o sentimento de culpa por permitir que noite após noite a história seja sempre a mesma.
Na génese de todas as minhas negações, invejo as criaturas vestidas de cores berrantes que todos os fins-de-semana vão passear as suas crias para os centros comerciais, cheios de clones com o mesmo fato de treino de roxo e verde.
Duvido que algum deles saiba o que é o amor, que conheça a razão que levou Cristo a chamar à Cruz a sua paixão. Mas conhecem a felicidade, enquanto eu escondo a minha infelicidade em piadas se sitcom: “...a felicidade é um orgasmo, um cigarro, um chocolate. Vens-te, fumas o cigarro, comes o chocolate e a felicidade acaba...”. Que digo com tanta convicção que poucos são aqueles que não acreditam nas minhas palavras.

segunda-feira, setembro 29, 2003

A PLACA

Um gajo ao longo dos dias faz um esforço incrível para ser simpático com quem o rodeia. É a nossa obrigação vem na bíblia e isso tudo. Mas por vezes é difícil, para não dizer completamente impossível.
Depois de um dia de horrível ressaca finalmente ganhei coragem para sair da cama. Estava tonto, doía-me o corpo todo e calculo que tinha até um pouco de febre. Tomei banho e fiz a barba para parecer um gajo decente e aceitei um convite amigável para jantar. É sempre bom jantar fora em dias de ressaca, especialmente com pessoas que nos fazem esquecer que a nossa vontade é procurar uma cova e ficarmos lá até ao resto da eternidade.
O Meco não é propriamente um sítio cheio de interesse num final de tarde de Setembro, mas sempre se encontra um sítio ou outro para beber um copo para fazer tempo para o jantar. Um ou outro pescador desempregado tenta nos convencer que precisa de dinheiro para comprar os medicamentos para a netinha muito doente, mas este tipo de episódios até transmite um pouco de humor ao copo, sempre são variedades gratuitas.
O restaurante tinha um ar simpático, as empregadas apesar de não serem bonitas não eram propriamente uns camafeus e eu preparava-me para comer lulas recheadas. Quando, vindos só Deus sabe de onde surgem dois cavalheiros que se sentam na mesa ao lado. Um deles, que aparentava estar profundamente alcoolizado, um estado muito meu conhecido, seria meu vizinho do lado durante o resto da minha refeição.
A conversa com o meu amigo estava interessante como sempre, disparávamos insultos cruzados sempre com grande sentido de desportivismo e riamos da miséria alheia. Tudo bem até aqui, um dia como outro qualquer, talvez a viagem não tivesse valido a pena, mas mesmo assim a noite estava a ser agradável.
Por um acaso do destino, no meio dos insultos eu decido falar sobre os meus dotes culinários que nunca que ajudaram a comer gaja nenhuma, o vizinho do lado, pelas suas palavras um grande cozinheiro, decide aumentar a minha cultura culinária. Na hora seguinte ouvi, com grande dificuldade, a descrição de duas dezenas de pratos em que o ingrediente principal, como não podia deixar de ser, era o vinho. Já sei fazer, carne guisada como vinho, camarões com vinho, sapateira com vinho, caldo verde com vinho e muitos outros petiscos do outro mundo.
O senhor em questão comia, ou melhor, cuspia sapateira enquanto falava comigo. Tinha uma forma única de abrir as patas da sapateira, usando os dentes, coisa normal na ausência dos tão úteis martelinhos de madeira, mas muito pouco prática naquela circunstância. Pois bem, reparando ele para o meu olhar de espanto, explico-me, ou melhor demonstro-me a lógica para tal feito, enquanto caíam pedaços de sapateira da sua placa erguida bem alto na sua mão direita como um troféu dizia:"Não tenho medo de partir os dentes, a placa é muito resistente.".
Olhei para as lulas, pedi a conta, fui à casa de banho, vomitei e voltei para casa.

Dúvida: -Será que alguém neste mundo pensa que usar placa é um motivo de orgulho?